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Pernambuco vive maldição do endividamento há uma década

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Foto: reprodução

Endividamento começou no último ano da gestão Eduardo Campos, prosseguiu nos oito anos de Paulo Câmara, que passou seis apenas quitando prestações dos empréstimos feitos por Eduardo Campos, e agora no primeiro ano de Raquel Lyra

Por Fernando Castilho / JC Negócios

Nos últimos anos, quando se pergunta a atores econômicos dentro do setor público e privado quais os grandes empreendimentos que Pernambuco persegue, uma lista tríplice se repete: a ferrovia Transnordestina, o Arco Metropolitano e a Adutora do Agreste.

Dos três, apenas a Adutora tem horizonte de conclusão dentro do governo de Raquel embora ainda dependa de recursos prometidos pela União. O Arco Metropolitano, dividido em dois eixos, tem promessa do governo de ter licitado apenas o trecho Sul, que liga a BR-232 à BR-101 e deve ser licitado e iniciado ainda no governo Raquel Lyra. O eixo Norte ainda depende de um acerto sobre seu traçado.

Já a ferrovia Transnordestina virou uma quimera pernambucana, uma vez que depende da liberação de verbas da União para que seja concluído o trecho entre Salgueiro e Suape. A empresa concessionária do projeto, a CSN, optou por fazer a curva em Salgueiro (PE) na rota Eliseu Martins (PI) para Pecém, no Ceará.

Essa carência de projetos estruturadores se deu depois da implantação de ao menos três grandes projetos anunciados, ainda no governo de Eduardo Campos, quando, com o apoio do presidente Lula, Pernambuco conquistou a Refinaria Abreu e Lima, a Petroquímica Suape, ambas no Complexo de Suape, e a planta da Jeep, em Goiana.

A Refinaria, como se sabe, virou o eixo de corrupção que nos levou ao escândalo da Lava Jato, na Petrobras. Ela teve concluída apenas uma parte, e a segunda está sendo anunciada agora com previsão de ficar pronta em 2028. Além dos R$ 28 bilhões já aplicados, vai custar mais R$ 8 bilhões para ser concluída, num investimento que precisará de, ao menos, 30 anos para se pagar.

Mas os outros dois vão bem, obrigado. A Petroquímica Suape foi privatizada por cerca de R$ 1,5 bilhão (foram gastos R$ 9 bilhões na construção pela Petrobras) e hoje opera dentro do grupo mexicano Alpek, que se concentra em produzir PET na unidade central, tendo abandonado a planta de fios polímeros e de filamentos de poliéster (antiga Citepe), que deveria suprir o mercado têxtil de sintéticos.

Já a Jeep é, de fato, nosso melhor case de sucesso tendo, em vista que os cinco modelos ali produzidos (Renegade, Compass, Toro, Commander e RM Page) são sucesso de vendas e consolidaram um complexo alimentado por 38 outras empresas (sistemistas) que geram 60 mil. O complexo já recebeu R$ 7,5 bilhões e deve receber mais R$ 30 bilhões dentro da estratégia da Stellantis de produzir no Brasil carros híbridos e elétricos.

Boas promessas em vista

Mas, fora eles, a lista não tem novos empreendimentos. E isso preocupa empresários, líderes associativos, consultores de projetos e parte da classe política que fazem a mesma pergunta:

Para onde vai Pernambuco no novo cenário da economia brasileira, que fala de descarbonização, indústria 4.0, produção de energia limpa? Ou onde estaremos nesse novo ambiente de integração das cadeias de logística internacional que funcionam como uma espécie de Lego global, onde, em cada país, são agregadas novas partes de um produto?

Curiosamente, por ser depois da Bahia – o estado com a maior economia do Nordeste -, Pernambuco se move, ainda que sem uma presença marcante do governo do Estado, no sentido de apontar caminhos.
Por exemplo: no setor de energias renováveis, Pernambuco tem o maior pacote de projetos em desenvolvimento com R$ 10 bilhões previstos.

No setor de alimentos, a sua tradicional presença regional está presente em quase toda a cadeia produtiva (especialmente decorrente do insumo açúcar), e também um complexo industrial de proteína animal sendo o único da região que produz industrialmente carnes bovina, suína, ovina, de peixe, de frango e ovos, embora isso não seja vendido como um diferencial interregional.

Temos ainda a agroindústria canavieira, que, após ter sido reduzida em termos de importância regional e nacional, agora tem um conjunto de 13 empresas que sobreviveram. Aos menos seis têm um novo perfil de gestão. E, finalmente, a fruticultura irrigada, que se consolidou no Vale do Rio São Francisco como um ator importante e competitivo internacionalmente.

Para onde vai Pernambuco?

Mas a pergunta continua? Para onde vai Pernambuco? O que você desenha para seus próximos 25 anos ou 50 anos? E o que o governo e investidores planejam para inserir o estado no novo mapa que está sendo desenhado após a Reforma Tributária?

Talvez o problema de Pernambuco seja sua multiculturalidade econômica. Costuma-se dizer que Pernambuco é tão diverso que no seu nome nenhuma letra se repete. E que o seu Carnaval é tão diverso que se brinca ao som de 15 ritmos.

A sabedoria popular diz que a fartura é a irmã gêmea do desperdício. E isso parece explicar por que Pernambuco não tem foco e não tem fixado linhas de horizonte onde deseja chegar. Talvez porque sua classe política e sua gestão tenham se acostumado com uma mesmice confortável de pagar as contas, não se endividar muito e se manter numa preocupante zona de conforto.

Isso nos levou a perder relevância dentro do Nordeste com o crescimento da competição entre os estados, melhoria da infraestrutura de outros e agressividade na busca de novos atores e implantação e estruturação de cadeias produtivas, inclusive em segmentos que Pernambuco tem presença importante.

As maiores economia do Nordeste

Estruturalmente, pode-se dizer que o Nordeste tem três estados com as maiores economias, onde a Bahia lidera com o maior PIB, Pernambuco vem em segundo, com aproximadamente dois terços do PIB da Bahia, e o Ceará fica em terceiro, com dois terços do PIB de Pernambuco.

Mas, enquanto a Bahia – cujo território se assemelha ao mapa do Brasil em tamanho menor – evoluiu para o agronegócio na sua região oeste, melhora seus investimentos na área industrial, agregou a cadeia de energia limpa e disparou seu crescimento procurando ser um ator nacional se descolado do Nordeste devido ao crescimento de seus negócios; Pernambuco não teve o mesmo dinamismo.

Da mesma forma que o Ceará – reconhecido como o estado de maior autoestima na Região. O estado é o maior em número de empresas listadas em bolsa. Após consolidado o projeto da Transnordestina, mira no mercado de hidrogênio verde, onde se orgulha de dizer que já tem negociados ou tem protocolos de ao menos 12 empreendimento que podem mudar sua economia com a exportação de grandes blocos de energia.

Bahia e Ceará também são os estados onde seus empresários e o governo melhor embalaram o setor de turismo, como produto de atração de visitantes, mesmo Pernambuco tendo uma liderança nas operações do setor aéreo e sendo o maior hub de conexões interregionais.

Maldição do endividamento

Mas é importante lembrar que Pernambuco sofreu uma espécie de maldição do endividamento nos últimos 10 anos, em que tudo o que fez foi pagar dívidas de empréstimos feitos no passado recente. Já faz uma década que pagamos rigorosamente as parcelas de empréstimos tomados para investimentos.

Isso começou no último ano da gestão Eduardo Campos, com o governador João Lyra, prosseguiu nos oito anos de Paulo Câmara, que passou seis apenas quitando prestações dos empréstimos feitos por Eduardo Campos, e agora no primeiro ano de Raquel Lyra.

Costuma-se dizer que o governador Jarbas Vasconcelos pagou um Celpe para reequilibrar as contas do estado ao assumir o governo sucedendo a Miguel Arraes, e que o governador Paulo Câmara pagou quase uma Jeep para quitar os empréstimos de seu antecessor e padrinho político até entregar o estado equilibrado financeiramente a Raquel Lyra.

A despeito de no último ano ter um volume de gastos tão grande que fez Pernambuco perder a Capag B (autorização para tomar empréstimos com aval da União), que ele mesmo havia reconquistado em 2021.

É verdade que Eduardo Campos, com as condições deixadas por Jarbas Vasconcelos, a ajuda do presidente Lula no seu segundo mandato com fortes transferências voluntárias ao estado e uma boa arrecadação própria, pôde alavancar investimentos através empréstimos. Parte deles foi gasta para pagar a infraestrutura dos grandes empreendimentos que recebeu nos seus mandatos de governo.

Mas também é verdade que Raquel Lyra, que recebeu o estado com baixíssimo nível de endividamento e também goza o apoio do mesmo Lula, até agora não recebeu transferências voluntárias feitas por Eduardo Campos e não tem uma carteira de projetos estruturadores que possa alavancar com operações de crédito.

Talvez porque Paulo Câmara não tenha identificado e preparado empreendimentos mais arrojados, se concentrando em honrar os compromissos financeiros e a memória de seu antecessor.

Ou porque, como servidor público de carreira, tenha se contentado em fazer um governo que foi receber pequenos empreendimentos, pagar os salários no mês de competência e pagar a dívida junto à Secretaria do Tesouro Nacional.

Os desafios daqui para frente

Isso significa que Raquel Lyra, a primeira mulher a assumir o governo e ainda mais tendo uma outra mulher na vice-governadora (Priscila Krause), tem o desafio de conceber, escrever, formatar, estimar custo e captar recursos de projetos novos. Evidentemente não pode ser o de viabilizar apenas o Arco Metropolitana, a Transnordestina e concluir a Adutora do Agreste.

Ao menos isso não está dado nos empréstimos que fez ainda quando tinha o Capag B perdido ano passado, embora ela possa recuperá-lo em 2025. Suas equipes trabalham em projetos que estão no campo de ações já existentes e que, de fato, precisam de atenção. Algo que por si só já toma o tempo de seus secretários.

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