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O futuro do gesso no Araripe

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Foto: divulgação

Por Geraldo Eugênio / Jornal do Sertão*

No último dia 06 de fevereiro de 2024, o governo do Estado de Pernambuco lançou um programa que visa a instalação de uma unidade de distribuição de gás. Produto este a ser transportado liquefeito de algum ponto acessível até Araripina, e posteriormente, sob a forma de gás chegar à principais indústrias do setor.

Limitações

Uma das mais importantes atividades econômicas da Chapada do Araripe é a produção de gesso para a construção civil. É também sabido que esta cadeia produtiva é a principal supridora de caatinga uma vez que quase a maioria dos fornos calcinadores usa a lenha em sua matriz energética. Apesar do uso da algaroba, ainda hoje a maioria dos caminhões que fornecem este produto transporta lenha da vegetação nativa e nem sempre de projetos que incorporam como princípio o manejo florestal.

A contradição está no fato de que o mais importante ativo do ponto de vista ambiental, ecológico, social e econômico do semiárido é a Caatinga e transformá-la em lenha ou carvão em pleno século XXI é algo que deve ser repensado. No último dia 06 de fevereiro de 2024, o governo do Estado de Pernambuco lançou um programa que visa a instalação de uma unidade de distribuição de gás. Produto este a ser transportado liquefeito de algum ponto acessível até Araripina, e posteriormente, sob a forma de gás chegar à principais indústrias do setor.

Uma iniciativa louvável uma vez que inclui entes estaduais, como a Copergás, e a sensibilidade do governo em si, as Prefeituras da Região, capitaneadas por Araripina e o empresariado. Não há por que duvidar, da tenacidade do governo estadual em ver os dutos à porta das indústrias. O próximo capítulo, um pouco mais árduo, se dará em duas fases. A primeira é a conversão dos fornos, o que exigirá investimentos por parte das empresas locais e o segundo é a conta mensal do gás que apesar da isenção de ICMS certamente será um pouco mais alta do que a da lenha da caatinga tal qual comercializada. Espera-se que todos cumpram o que ficou decidido e que em até 2025 se comprove a redução substancial da lenha da caatinga na calcinação do gesso.

Uma outra atividade plena de oportunidade é o uso do gesso agrícola tanto na Chapada do Araripe quanto de modo ainda mais efetivo no Cerrado, destacando-se os estados do Piauí, Maranhão e Bahia. Voltando a chamar a atenção ao fato de que o gesso como condicionante do solo, bem como como supridor de Enxofre e Cálcio não depende de calcinação. Isto é, sua obtenção depende da extração da gipsita e da moagem, também demandadores de energia mas que não necessitam de fornos à lenha. Este produto e sua valorização, conforme discutido aqui em semanas anteriores, depende exclusivamente do arranjo local, das práticas comerciais e de uma boa estratégia de comunicação lastreada em pesquisa e desenvolvimento. Espera-se que o setor avance quanto ao amadurecimento e que saia do estágio autofágico para o colaborativo onde todos sairão vitoriosos.

Voltando ao bioma em si, se faz interessante chamar a atenção para o impacto negativo que o desmatamento tem tido sobre a produção apícola, uma das principais atividades econômicas para o pequeno e médio produtor do Sertão de Pernambuco, Piauí e do Ceará. Se constata uma diminuição na produção do mel e não se deve deixar dúvida alguma que esta tendência se associa diretamente à redução da cobertura vegetal e consequentemente das floradas. Um segundo fator ainda mais sério diz respeito à redução drástica ou extinção de algumas espécies da flora, da fauna e da microbiota do solo

Perpectivas

Durante a visita de trabalho mencionada tive a oportunidade de rever o eu houve de mudança no setor agropecuário que possa estar agregada à indústria mineral nas últimas três décadas e merecedoras de registro:

Atividade florestal – Há vinte anos tem sido realizado um teste de produção de clones de eucalipto – Uma iniciativa o Prof. José Antônio Aleixo, da UFRPE, posteriormente encampada pelos pesquisadores da Embrapa Semiárido. Ambas em colaboração com a equipe técnica o IPA. Uma iniciativa aparentemente polêmica mas que demonstrou que as espécies de eucalipto adaptadas às condições da serra apresentam uma produtividade entre quatro e seis vezes as espécies autóctones. Lição a se tirar: Há uma atividade econômica com perspectivas do ponto de vista florestal para as áreas alteradas, o que é quase a totalidade à exceção da Floresta Nacional do Araripe.

Cultivo de grãos – Não é à toa que a soja se tornou a mais importante cultura agrícola do ponto de vista econômico e o carro-chefe na pauta de exportações do Brasil, isto se deu a partir do seu cultivo  no Rio Grande do Sul, e posteriormente, ela foi subindo rumo ao norte, acompanhando a saga dos gaúchos que subiram Centro-Oeste adentro, chegando até  Roraima. Tornando o Brasil conhecido como uma região em que se consegue duas safras anuais, como é o caso da soja-milho, ou soja sorgo, ou soja-milheto, algo que não se consegue imaginar no hemisfério Norte. Obviamente,   a situação do Cerrado não é a mesma que a da Chapada, lembrando que em alguns quesitos seja preferível se cultivar neste ambiente do que em partes do MATOPIBA, por exemplo. A Chapada não conta com 1.200 a 1.500 milímetros de chuvas anuais como é o caso do Oeste da Bahia mas, os 700 milímetros que incidem sobre ela é o suficiente para o manejo da cultivar até se obter uma produtividade economicamente aceitável. Registre-se que em 1996 em um campo de demonstração na Estação Experimental do IPA, em Araripina, de trinta e dois hectares, foram obtidos 3.200 kg por hectare o equivalente a 53 sacas, um número expressivo mesmo para os padrões atuais de cultivo.

O mesmo podendo-se dizer do milho. Nas últimas safras, empresários ligados à Avipe – Associação dos Avicultores de Pernambuco- têm conseguido colher ao redor de seis mil quilos por hectare, o que equivale a 100 sacas. Algo absolutamente invejável, excedendo a média nacional de produtividade e ao pé do que há se conseguido em todo o Cerrado.

Cultivo da Mandioca – Sempre lembro do lindo livro editado pela Embrapa sobre esta espécie com o marcante título Mandioca, o pão do Brasil, o que se aplica de forma inconteste à Chapada do Araripe. Os ganhos de produtividade têm sido escassos o produtor regional se debate com produtividades muito aquém da potencialidade produtiva. Esta é uma cadeia produtiva que conta com alguns ativos consolidados, como a malha fundiária, o histórico e o produtor que conhece e gosta de plantar suas manivas a cada ano. Chegou o momento de trabalhar uma inserção de tecnologia capaz de tornar a mandioca uma opção econômica de renda e não apenas uma atividade de sobrevivência. Felizmente não são poucos os formuladores de política para a região que perceberam a importância desta mudança e estão procurando dar o apoio devido. Em outras palavras, é importante deixar claro que quem quer que seja o tipo de produtor da Chapada do Araripe, este necessita de renda como antídoto à pobreza e ao desmatamento.

Atitudes que dependem do empresariado local

Vale uma reflexão por parte das principais lideranças do setor. Apesar dos interesses serem múltiplos, uma vez que nem sempre quem dispõe de minas???, processa a gipsita e participa da confecção de placas, todos estão literalmente no mesmo barco. O sucesso do uso do gesso nas culturas de soja, milho, algodão, café no Cerrado, além do fato de que o produto oriundo do Araripe ser de alta qualidade do ponto de vista nutricional, faz do gesso agrícola um produto essencial ao agronegócio nacional e a matéria prima que relaciona Pernambuco com o Cerrado brasileiro. A outra mudança, de certo modo radical, será o uso do gás para a calcinação da rocha. Esta oportunidade construída não pode ser desperdiçada uma vez que dificilmente haverá outras chances. A atividade industrial merece ser reconhecida como algo sustentável e deixar para trás  o conceito de ser uma ameaça ao meio ambiente, outras cadeias produtivas e à caatinga.

*Professor Titular da UFRPE-UAST

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