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A segunda tragédia no Rio Grande do Sul; politização tornará recuperação do estado mais lenta

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Foto: RICARDO STUCKERT

Nos primeiros dias após o Rio Grande do Sul ser atingido por uma tragédia climática e humana sem precedentes, autoridades dos Três Poderes deram uma demonstração de que pareciam ter compreendido a gravidade do momento. A ida do presidente Lula da Silva ao Estado comandado pelo governador Eduardo Leite (PSDB-RS), acompanhado de ministros, dos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e do Tribunal de Contas da União, Bruno Dantas, além do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, prenunciava uma grandeza possivelmente inédita: a concertação entre distintas instâncias de poder e lideranças políticas, algumas delas atravessadas por diferenças ideológicas e partidárias. Tratava-se de uma união de esforços compatível com o ineditismo das adversidades. Como este jornal sublinhou em editorial na ocasião, o imperativo da solidariedade obrigava os envolvidos a deixar as diferenças de lado e a unir esforços para ajudar os gaúchos (A tragédia que comove o País, 7/5/2024).

Mas esse clima de distensão e cooperação durou pouco. Se as lideranças políticas do País precisavam passar por um teste para mostrar sua capacidade de superação das diferenças e das ambições eleitorais em nome do bem comum, que é o fim último da política numa democracia digna do nome, não resta dúvida: passaram, e foram reprovadas. Pelo que se viu nos últimos dias, uma gestão errática da crise completou o caos das cidades gaúchas. O primeiro alerta vermelho, recorde-se, foi emitido em 29 de abril, as autoridades viajaram juntas na primeira semana de maio e até aqui ainda nem sequer existe uma central de gerenciamento de crise na qual os três níveis de governo e os Três Poderes possam se encontrar e tomar decisões. Ao contrário, as ações parecem regidas por desconfiança e críticas mútuas e uma assombrosa disputa por protagonismo.

Enquanto o governo de Lula da Silva resolveu criar uma exótica autoridade federal no Estado – sem comunicar previamente o governador Eduardo Leite e nomeando para o cargo, na caradura, um pré-candidato à sucessão do tucano –, bolsonaristas atacam o governo federal e a esquerda põe o dedo em riste contra o governo estadual. É flagrante a falta de coordenação entre as prefeituras, o governo estadual e a Presidência da República, numa relação adornada por demagogia, despreparo e desinformação. Para completar, um tiroteio generalizado nas redes sociais, com difusão de mentiras e distorções da realidade que, se não provocam danos na mesma escala dos estragos causados pelas chuvas, mina o esforço nacional para ajudar o Rio Grande do Sul. Algo bem diferente do que se viu, por exemplo, na tragédia provocada pelas chuvas no litoral norte de São Paulo, quando prefeitos da região, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o presidente Lula demonstraram união e capacidade de coordenação exemplares.

O mais grave é constatar que a desorganização de agora se dá diante de obstáculos ainda maiores, incluindo um desafio inaudito: reconstruir uma unidade inteira da Federação, destruída como se tivesse enfrentado uma guerra – que devastou praticamente toda a sua infraestrutura, deixou cidades completamente ilhadas, interditou pontes e estradas, deixou o principal aeroporto fechado por tempo indeterminado e prejudicou o fornecimento de água, energia elétrica e alimentos. E ainda nem é possível dizer qual a real extensão dos estragos e do esforço necessário para repará-los.

A confusão instalada nestes dias sombrios demonstra que nem mesmo a premente necessidade de salvar os gaúchos foi capaz de desarmar os ânimos palanqueiros. E, enquanto se calculam os prejuízos e os imensos aportes necessários para a reconstrução, os líderes políticos que deveriam estar cooperando desinteressadamente para acelerar o processo de recuperação do Rio Grande do Sul estão fazendo outro tipo de cálculo: quantos votos sua atuação na crise lhes dará nas próximas eleições.

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